Nivelando o conhecimento

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Se você já leu a página contando a história do blog (se ainda não, pode ler aqui) já sabe que a inspiração veio de uma visita ao Museu de Artes e Ofícios em Belo Horizonte, onde vi a niveladora que dá nome ao blog e também é a ilustração do cabeçalho. Como tema da primeira postagem, nada mais justo que homenageá-la, e para isso comecei uma pesquisa para identificar qual o modelo, época em que foi fabricada e quais suas características mais curiosas. Minha surpresa foi grande, pois, como veremos abaixo, ela representou uma revolução na tecnologia de nivelamento de solo.

Se você já teve a oportunidade de ver uma motoniveladora trabalhando, pode ter se perguntado qual o motivo para os estranhos ângulos de cambagem (ângulo das rodas com a vertical), que esses veículos assumem, conforme as condições de trabalho.

Motoniveladora New Holland RG200.B. Fonte: Divulgação[1]

Motoniveladora New Holland RG200.B. Fonte: Divulgação [1]

Bem, isso nem sempre foi assim. Antes da virada do século XX, as niveladoras não passavam de uma tábua arrastada por cavalos, porém a ascensão da utilização de bicicletas e posteriormente de automóveis requeriam que as estradas fossem melhor niveladas e sofressem manutenções em menores períodos para permitir maior velocidade de deslocamento do que era possível com as antigas carruagens. Para isso surgiram niveladoras de maior porte, para proporcionar um rendimento melhor dos serviços, porém uma nova dificuldade surgiu: em terrenos inclinados as niveladoras tendiam a deslizar, pois a resistência ao movimento que a carga exerce sobre a niveladora tende a empurrá-la em direção contrária ao material removido, tornando o trabalho mais lento e necessitando uma maior potência do motor (ou mais cavalos!). Isso foi atenuado com a criação dos sistemas que permitem dispor a lâmina em ângulo, fazendo com que o material fosse jogado para a margem da estrada ao invés de empurrado para frente, mas a solução definitiva veio em 1885 quando Joseph D. Adams, um inspetor de obras sem graduação ou treinamento em engenharia, desenhou a “Little Wonder” uma niveladora de arrasto onde as rodas poderiam ser inclinadas de acordo com a vontade do operador, aumentando o apoio na direção para a qual o equipamento desliza de forma a reduzir esse problema. Isso era possível através de um sistema de alavancas e engrenagens, explicado logo abaixo. Tal foi o sucesso do sistema que em 1890, J. D. Adams já havia estabelecido sua fábrica de niveladoras e outros equipamentos, a J. D. Adams & Co., que continuou até 1955, quando foi adquirida pela LeTorneau-Westinghouse Company.

US310165A

Desenho da “Little Wonder” presente no pedido de patente. Fonte: Patente US310165A [2]

O Rei da Estrada

Niveladora de arrasto Adams Road King No.8(?). Fonte: Arquivo Pessoal [3]

Niveladora de arrasto Adams Road King No.8(?). Fonte: Arquivo Pessoal [3]

Já o modelo exposto no MAO (Museu de Artes e Ofícios) é da linha Road King, introduzida em 1896, com quatro rodas, estrutura em aço e lâminas de 8 polegadas, e que permaneceu em produção até 1922, sofrendo melhorias constantes neste período. Ao analisa-lo, é possível notar diversas características, como a estrutura de configuração arqueada (a), que permite um maior curso para a lâmina, aliando ainda uma maior resistência e menor peso trabalhando em conjunto com uma lâmina côncava (b) com regulagem de ângulo. Outro ponto interessante é a presença de um sistema visto em (c) chamado “steerable tongue” (traduzindo literalmente, “língua guiável”), um tipo de engate inventado por J.D. Adams em 1912, que permite que a niveladora seja dirigida por um caminho diferente daquele que os animais ou trator definiam.

Vista do sistema “steerable tongue”. Fonte: Arquivo pessoal[3]

Vista do sistema “steerable tongue”. Fonte: Arquivo pessoal [3]

Outra característica notável é o sistema de inclinação das rodas criado por J.D. Adams e presente em ambos os eixos, onde uma caixa de engrenagens (d) move o tirante (e) de um lado a outro, movimentando alavancas (f) que inclinam os cubos de roda (g), permitindo uma regulagem dos ângulos conforme as condições do terreno.

Vista do sistema “leaning-wheel”. Fonte: Arquivo pessoal [3]

Vista do sistema “leaning-wheel”. Fonte: Arquivo pessoal [3]

Na imagem acima é possível notar ainda o sistema de pinhão e cremalheira (f) que permite deslocar todo o conjunto de rodas traseiras para a esquerda ou direita em busca de uma segunda “trilha” boa para apoiar as rodas traseiras.

Marketing de época

Curiosa também era o marketing de época, como nos cartazes abaixo:

Propaganda de época das niveladoras J. D. Adams. Fonte: Historic Indianapolis [4]

Propaganda de época das niveladoras J. D. Adams. Fonte: Historic Indianapolis [4]

Além da propaganda bem humorada e confiante, no folheto acima é possível ver que agentes eram procurados. Esses contavam com algo mais além de suas habilidades de vendedores: para demonstrar as capacidades do sistema de rodas inclináveis, eles recebiam maletas de couro com uma maquete de demonstração, completamente funcional e totalmente fiéis ao modelo de venda. Essas miniaturas contavam com jogos de pesos e polias que eram utilizados para demonstrar o esforço requerido para tracioná-la nas mais diversas condições e os ganhos obtidos pelo sistema “leaning wheel”. Muito raras hoje, tem atingido valores da ordem de 10.000 dólares em leilões on-line.

Modelo Road King de demonstração usado pelos vendedores. Fonte: icollector.com [5]

Modelo Road King de demonstração usado pelos vendedores. Fonte: icollector.com [5]

Mesmo com todos esses avanços, após a década de 1930 as chamadas motoniveladoras, que juntam o sistema de tração e de nivelamento em um único equipamento passaram a dominar o mercado, pela sua praticidade e maior simplicidade de operação, levando a extinção das niveladoras de arrasto de grande porte, porém o conceito de rodas inclináveis permanece até hoje nas rodas dianteiras onde a massa é menor (como na niveladora New Holland do início da matéria), demonstrando que boas ideias sobrevivem ao tempo.

Fontes:

Biblioteca do Estado de Indiana: http://www.in.gov/library/3920.htm. Data de acesso: 27/12/2015.

Haddock, Keith, The Earthmover Encyclopedia, Capítulo 8, pgs. 138-139.

Haddock, Keith, Giant Earthmovers: An Illustred History, Capítulo 5, pgs. 78-82.

Manning, Dan, Early Road Construction with Pull-Type Graders: The need for improved road maintenance spurred development of the pull-type grader , disponível em: http://www.farmcollector.com/equipment/pull-type-grader-zm0z13aprzbea.aspx. Data de acesso: 27/12/2015.

Berry, Tom, Iron Works: The Design of a Pull Grader, disponível em: http://www.constructionequipment.com/iron-works-design-pull-grader. Data de acesso: 02/01/2016.

Berry, Tom, The Leaning-Wheel Grader, disponível em: http://www.constructionequipment.com/leaning-wheel-grader. Data de acesso: 02/01/2016.

Adams, Joseph D. Marshall, Indiana. Road Grading Machine. US310165A. Publicado em 06/01/1885.

Imagens:

[1]: Divulgação New Holland, disponível em: http://construction.newholland.com/lar/pt/equipment/graders/pages/rg200b.aspx#sthash.HDs4Fvw4.dpbs. Data de acesso: 02/01/2016.

[2]: Adams, Joseph D. Marshall, Indiana. Road Grading Machine. US310165A. Publicado em 06/01/1885. Acessado em Google Patents. Data de acesso: 05/01/2016.

[3]: Arquivo Pessoal

[4]: Retirado de: Lorentz, Lisa. Sunday Adverts: Don’t read this. Disponível em: http://historicindianapolis.com/sunday-adverts-dont-read-this/. Data de acesso: 06/01/2016.

[5]: Retirado de icollector.com. Disponível em: http://www.icollector.com/Salesman-s-sample-road-grader-Adams-Leaning-Wheel-Grader-in-orig-carrying-case-w-metal-maker-s-tag_i19332171#. Data de acesso: 06/01/2016.

 

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