AC

No final dos anos 60, Anísio Campos já era um nome estabelecido do cenário automobilístico brasileiro, e julgava que os protótipos e carreteras que competiam no Brasil eram “desprovidos de beleza”, independente de sua eficiência nas pistas. Com isso em mente, desenvolveu o protótipo AC para aliar beleza e desempenho utilizando como base o regulamento do Grupo 7, ainda que com algumas modificações o carro também pudesse ser enquadrado no Grupo 6.

O carro foi apresentado ao público em 1969 no estande da Puma no Salão do Automóvel, e chamou a atenção pela cor vermelha e suas linhas agressivas. O chassi foi construído em aço SAE 1030 para reduzir o custo e simplificar a manutenção, e a carenagem moldada em fibra de vidro, resultando em apenas 490 kg. 

AC no estande da Puma no Salão do Automóvel de 1968. 📷Paulo Henrique Souza via Automobilismo nacional, época de ouro! Dos primórdios aos anos 80.

A suspensão dianteira era dos carros Volkswagen, enquanto a traseira, também independente foi projetada por Anísio Campos. Inicialmente o carro recebeu motorização Volkswagen 1600 preparado por Roger Resny com kit Puma e um radiador de óleo lateral. A transmissão era Volkswagen, montada em posição invertida.

Chassi do AC. Podemos ver os coletores de escape especiais e o câmbio VW montado em posição invertida. 📷Paulo Henrique Souza via Automobilismo nacional, época de ouro! Dos primórdios aos anos 80.

Uma das grandes novidades do carro era o uso de um aerofólio central que podia ser ajustado de dentro do cockpit pelo piloto: com o apertar de um botão no painel o aerofólio passava da posição paralela ao solo para uma inclinação de 45 graus.

Um grande destaque do primeiro AC era o aerofólio ajustável. 📷Paulo Henrique Souza via Automobilismo nacional, época de ouro! Dos primórdios aos anos 80.

Durante teste realizado por Expedito Marazzi para a revista Quatro Rodas, o jornalista revelou que em seu teste identificou um comportamento subesterçante (tendência de sair de frente) no carro, algo inesperado para um protótipo de motor central, além de comentar que o centro de pressão aerodinâmica gerada pelo aerofólio estava atrás do centro de massa do carro, gerando uma tendência da frente ficar leve e praticamente eliminando o benefício do downforce extra no contorno de curva. Em um primeiro teste com o AC no autódromo do Rio de Janeiro, Pedro Victor Delamare marcou um tempo de 1m37s7, muito próximo das marcas do Bino MkII (1m36s5) e do Fitti-Porsche (1m33s4).

Teste do AC na Revista Quatro Rodas. 📷Revista Quatro Rodas.

Com a chegada de novos carros importados com motorização mais forte como Lola T70 e Alfa 33, o AC com motorização Volkswagen já não era mais capaz de lutar pela ponta. Para tentar reverter a defasagem, Anísio Campos junto a Bird Clemente compraram o conjunto mecânico do Fitti-Porsche, representando o máximo de desempenho possível para o AC, que foi projetado para receber a motorização Volkswagen. Curiosamente, o AC tinha a direção do lado direito e, enquanto no AC-VW a alavanca de câmbio ficava também à direita, no AC-Porsche a alavanca ficava no centro, obrigando o piloto a manejar o câmbio com a mão esquerda. O desempenho do carro com a nova motorização se mostrou promissor, em que pese o escalonamento do câmbio não ser ideal, com relações de marcha muito longas, especialmente a primeira e a quarta marcha.

AC-Porsche. 📷Revista Quatro Rodas.

Histórico nas pistas

A estreia do AC nas pistas aconteceu pelas mãos de Angi Munhoz, na prova Marechal Costa e Silva, disputada no anel externo do autódromo de Curitiba. Cotado como um dos favoritos para a vitória, Angi disputou a vitória nas primeiras voltas, até abandonar na 15ª volta com o radiador de óleo trincado.

Estréia do AC nas pistas. 📷Revista Quatro Rodas.

Em seguida vieram os 1.000 Quilômetros de Brasília, primeira etapa do Brasileiro de Marcas, onde três AC teriam corrido. Teriam, pois o carro que seria pilotado por Anísio Campos e Bird Clemente sequer chegou a largar. Os outros 2 carros, das duplas Fritz Jordan/Cláudio Daniel Rodrigues Filho e Walter Hahn Jr./Angi Munhoz disputaram o segundo pelotão porém não se classificaram entre os 10 primeiros na prova, vencida pela Alfa GTA de Marivaldo Fernandes e José Carlos Pace.

Os AC de Fritz Jordan (amarelo) e Walter Hahn Jr. (vermelho) no estacionamento dos 1.000 Quilômetros de Brasília. 📷Leonardo Pavani via Automobilismo nacional, época de ouro! Dos primórdios aos anos 80.

A próxima prova foram as Três Horas de Velocidade disputadas no circuito da Guanabara, válida como primeira etapa do Brasileiro de Pilotos. A prova teve vitória fácil da Alfa 33 de José Carlos Pace, porém os protótipos AC fizeram bonito: Francisco Lameirão marcou o segundo tempo no treino classificatório, atrás da Alfa mas à frente de carros mais fortes como a Lola T70 de Marcelo de Paoli e do Snob’s de Eduardo Celidonio.

Os protótipos AC de Fritz Jordan (laranja) e Wilson Fittipaldi (vermelho). 📷Revista Quatro Rodas.

Na prova, Lameirão manteve a segunda posição mesmo com a embreagem quebrada, até abandonar na sétima volta com uma quebra de motor. Outro carro, pilotado por Wilson Fittipaldi que o comprou de Angi Munhoz, também fez bonito até abandonar com o motor fundido. Coube ao então novato Fritz Jordan conquistar a segunda posição geral, demonstrando o potencial do AC.

O AC de Chiquinho Lameirão com o motor quebrado. 📷Revista Quatro Rodas.

 Para a Prova dos Namorados, disputada em Curitiba, disputada no anel externo de Curitiba. Novamente, o carro mais rápido nos treinos foi o AC de Francisco Lameirão (1m02s800), equipado com motor 1900 preparado por Roger Resny, que apesar da velocidade teve um problema no motor e não participou do classificatório, largando na última posição do grid. A ele se seguiram o AC de Wilson Fittipaldi com 1m05s600, que em no intervalo de uma semana entre a prova da Guanabara e a de Curitiba recebeu um motor aumentado para 1750 cm³ e dois carburadores Weber 46, teve o radiador de óleo reposicionado para a dianteira além de ser o único equipado com rodas de 15”. O AC de Fritz Jordan seguiu sem modificações nessa prova, sendo o mais lento dos três nos treinos (1m06s100). Na prova, o carro de Lameirão cruzou a primeira volta na 15ª posição, recuperando 7 posições, enquanto Fittipaldi e Jordan cruzaram a primeira volta na sétima e oitava posição, respectivamente. Com 20 voltas de prova, Lameirão já ocupava a segunda posição, a frente da Carretera de Camilo Christofaro, mas uma parada para verificar a bóia de um dos carburadores o jogou para a 10ª posição na geral, seguido por Wilson Fittipaldi na 12ª posição.

O AC de Lameirão na Prova dos Namorados. 📷Revista Quatro Rodas.

O protótipo AC de Olavo Pires e Jorge Pappas conquistou a quarta posição dos 500 Quilômetros de Salvador, segunda etapa do Brasileiro de Marcas. O AC 1900 da equipe de Eugênio Martins foi vendido para a equipe mineira Carbel, sendo utilizado por Marcelo Campos nas 100 Milhas da Independência, disputadas no circuito do Mineirão. Equipado com a tomada de ar estilo periscópio, o AC era favorito frente a competição local presente na prova porém abandonou já na segunda volta com problemas na bomba de combustível.

O AC de Marcelo Campos nas 100 Milhas da Independência marcou as aparições das tomadas de ar “periscópio” nos protótipos AC. 📷Revista Quatro Rodas.

A terceira etapa do Brasileiro de Marcas foi disputada em seguida no Autódromo Virgílio Távora, no Ceará. O chamado Grande Prêmio do Nordeste reuniu competidores de todas as regiões do país, incluindo o protótipo AC da dupla brasiliense Olavo Pires e Jorge Papas, que conquistaram a 5ª posição na classificação final.

Largada da prova do Brasileiro de Marcas no Autódromo Virgílio Távora. 📷Revista Quatro Rodas.

Nos 1000 Quilômetros da Guanabara, quarta etapa do campeonato Brasileiro, onde competiram 2 protótipos AC: o AC 1600 de Fritz Jordan, preparado por Paulo Goulart e que teve como parceiro Alfredo Giorgi e o AC1800 da equipe Retífica Brasília de Pedro Victor Delamare e Olavo Pires. Jordan classificou seu carro em terceiro (1m38s4), atrás apenas da Alfa 33 e do Fusca Bimotor dos irmãos Fittipaldi, enquanto De Lamare/ Giorgi classificaram seu carro na 7ª posição (1m42s). Nos primeiros 200 Quilômetros de prova os 2 protótipos AC se mantiveram sempre entre os 5 primeiros, porém ambos sofreram problemas que os fizeram perder mais de 1 hora nos boxes logo após a marca dos 200 km. Logo após a prova, Alfredo Giorgi comprou o AC 1600 de Fritz Jordan.

O AC de Fritz Jordan na Guanabara, disputando com o Fusca Bimotor e a Lola T70. 📷Leonardo Pavani via Automobilismo nacional, época de ouro! Dos primórdios aos anos 80.

Em meados de 1970, Anísio Campos recebeu o prêmio Victor de melhor construtor pelo projeto do AC, derrotando Eduardo Celidonio (Snob’s), Ênio Garcia (Elgar), Marcelo Villar (Onça), Larens (Lorena) e Bica Votnamis (Caçador de Estrelas II).

A temporada de 1970, marcada pelas disputas entre Bino Mk II e Fúria, foi uma temporada de ostracismo para os protótipos AC, com a única participação em um prova principal nos 500 Quilômetros de Interlagos com o AC-Porsche de Anísio Campos, considerado um dos favoritos mas que abandonou antes do fim da prova.

O AC-Porsche nos 500 Quilômetros. 📷Revista Quatro Rodas.

Em 1970 também foram construídos 2 protótipos com carenagens AC “emprestadas”: o Casari A1 de Norman Casari e o MC Porsche  com chassi construído por Alexandre Herculano para Luís Masagão, Beto Coutinho Nogueira, Caetano Aliperti, Maurinho Moreira e Julinho Mesquita.

Em 1971, os protótipos AC praticamente desapareceram das pistas, reaparecendo com algum destaque apenas em 1972, com a 6ª posição de Mário Antunes no agregado da Copa Paraná (8ª posição na 1ª bateria e 7ª na segunda bateria), inauguração do traçado misto do Autódromo de Curitiba.

AC da equipe Lifesteel em Curitiba. 📷Ingo Hoffman via Automobilismo nacional, época de ouro! Dos primórdios aos anos 80.

O retorno dos protótipos AC em 1972 foi principalmente devido ao Campeonato Brasileiro de Viaturas Esporte Nacional para carros da Divisão 4 (chassi e motor brasileiros), disputado em conjunto com o Brasileiro de Viaturas Esporte (que incluía carros das Divisões 4, 5 e 6). Na prova de abertura, em Tarumã, Mário Mota conquistou o sétimo lugar na prova de Viaturas Esporte com seu AC-VW 1700, posição repetida no agregado das duas baterias da Esporte Nacional. 

No Festival de Roncos, disputado em Interlagos, Antônio Luís Meirelles conquistou a 5ª posição também com um AC-VW 1700.

Na segunda etapa do Brasileiro de Esporte Nacional, disputada em Interlagos, dois AC participaram: o AC ex-Lifesteel de Arthur Bragantino, que se classificou na 3ª posição geral (3m31s338) e outro para Jaime Levy, que largou na 14ª posição (6m45s853). Na primeira bateria, Bragantino ficou na terceira posição geral, que junto ao quinto posto na segunda bateria lhe garantiu o terceiro lugar na classificação agregada. Jaime Levy abandonou a primeira bateria com apenas uma volta, e não retornou para a segunda bateria.

O AC de Arthur Bragantini em Interlagos. 📷Revista Auto Esporte.

Para a terceira etapa, disputada também em Interlagos, o único AC foi o de Mário Antunes, inscrito tanto para a prova do Brasileiro de Viaturas Esporte quanto para a prova da Divisão 4. No Brasileiro de Viaturas Esporte, largou na décima posição, sexto entre os carros da divisão 4 (3m58s4), finalizando a prova em décimo terceiro, e na nona posição entre os carros da Divisão 4.

Na temporada de 1973, carros das Divisões 5 e 6 foram proibidos de competir, permanecendo a Divisão 4 como principal classe de protótipo no Brasil, com regulamento dividido em motorizações até e acima de 2 litros. Na classe até 2 litros, modelos como Manta, Heve e Polar começaram a se popularizar, o que não impediu que José Figueiredo trouxesse um já antigo AC para a quarta e quinta rodadas do Campeonato Brasileiro de Construtores, disputadas em Interlagos e válidas também pelo Campeonato Paulista de Divisão 4. Na primeira prova, disputada em 10 de junho, não marcou tempo no classificatório, largando na 25ª posição do grid, e completando as duas baterias em 14º, conquistando a 11ª posição na classe até 2 litros. Na quinta etapa do Brasileiro, disputada em 24 de junho, classificou-se em 17º com o tempo de 3m55s570, porém não largou em nenhuma das baterias da prova.

Ainda em Interlagos, foi disputada a sexta etapa do Brasileiro e terceira do Paulista de Divisão 4 em 2 de setembro, com a presença de José Figueiredo e seu AC-VW. Figueiredo se classificou na 13ª posição, com tempo de 4m35s612 e completou a primeira bateria na 11ª posição e a segunda em décimo terceiro.

A última aparição de um AC em provas nacionais aconteceu na oitava etapa do Brasileiro de Divisão 4 de 1972, válida também como quarta etapa do Paulista com o piloto identificado como Murruga, que classificou um AC na décima quarta posição geral (4m10s450), que completou a primeira bateria de 25 voltas na nona posição e sequer largou para a segunda.

Atualmente, o paradeiro de somente um dos protótipos AC é conhecido, tendo sido restaurado por Claúdio Mader e participado do documentário Homem Carro, dirigido por Raquel Valadares, filha de Anísio como homenagem ao legado de seu pai.

Fontes:

O AC Puma nas pistas. Revista Quatro Rodas, número 104, Março de 1969.

Curitiba. Landi e Zambello vencem. Revista Quatro Rodas, número 105, Abril de 1969.

Brasília, uma grande largada para o brasileiro. Revista Quatro Rodas, número 106, Maio de 1969.

Guanabara. Lá vai o “Môco”, tranquilo em sua Alfa. Revista Quatro Rodas, número 109, Agosto de 1969

Outro piloto, o mesmo carro, outra vez a Alfa em Curitiba. Revista Quatro Rodas, número 109, Agosto de 1969

Mineirão tem tarde de corrida. Revista Quatro Rodas, número 111, Outubro de 1969.

Ceará. Daqui saiu o campeão. Revista Quatro Rodas, número 112, Novembro de 1969.

AC-Porsche. Revista Quatro Rodas, número 111, Outubro de 1969.

1000 km em 9 horas. Guanabara. Revista Quatro Rodas, número 114, janeiro de 1970.

O encontro dos campeões. Revista Quatro Rodas, número 115, fevereiro de 1970.

Receita de Luisinho para vencer o Fúria. Revista Quatro Rodas, número 123, Outubro de 1970.

A festa foi de Casari. Revista Quatro Rodas, número 142, maio de 1972.

Campeonato Brasileiro. Revista Quatro Rodas, número 143, Junho de 1972

Festival de Roncos. Revista Quatro Rodas, número 143, Junho de 1972. 

Chulan é o líder na categoria esporte. Revista Quatro Rodas, número 148, novembro de 1972.

O Campeonato de Luizinho. Revista Quatro Rodas, número 149, Dezembro de 1972.

Construtores em Interlagos. Revista Quatro Rodas, número 156, Julho de 1973.

Pedro Victor. Uma ultrapassagem arriscada para a vitória ser completa. Revista Quatro Rodas, número 159, Outubro de 1973.

Avallone: o 1º campeonato. Revista Quatro Rodas, número 160, Novembro de 1973.

Un Can-Am… Asi de Chiquito. Revista Corsa, junho de 1969.

Você também pode se interessar por:

1970 Casari A1 230

Desenvolvido por Norman Casari sem apoio ou patrocínio, o Casari A1 foi o primeiro protótipo brasileiro moderno com motorização V8.

1969 Snob’s MK I

Após anos competindo com carreteras e outros carros de rua adaptados, o piloto Eduardo Celidônio encomendou um protótipo puro-sangue ao projetista Ricardo Divila

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.