10 Carros que provam que o automobilismo brasileiro está renascendo

Algum tempo atrás, tivemos aqui no site uma lista com 10 protótipos mostrando que ainda existia vida no automobilismo brasileiro. Desde então, passaram-se quatro anos, e uma crise financeira muito pesada, mas ainda assim os fãs de automobilismo têm motivo de sobra para comemorar: novas categorias floresceram no país, e jovens projetistas e equipes tradicionais criaram máquinas impressionantes, capazes em muitos casos de fazer frente a modelos de renome internacional nas categorias das quais participam.

Aqui, abro um adendo pois infelizmente, algumas pessoas parecem apenas ver valor nas soluções internacionais. Não que seja errado existirem categorias como GT3, TCR ou Fórmula 3 no Brasil, e nem que eu esteja pregando o fechamento do país, até porque isso seria a contramão dos tempos em que vivemos. A verdade é que essas e outras categorias “padrão FIA” apresentam custos elevados, pois foram concebidas para o cenário europeu, considerando o poder aquisitivo e o parque fabril daquele continente. Aqui no Brasil, isso resulta que tudo precisa ser importado, implicando em maiores custos, seja devido aos elevados impostos de importação, seja devido ao custo/tempo logístico bem superior, que obriga equipes utilizando equipamento estrangeiro a manter estoques maiores de peças de reposição (sem falar no excesso de burocracia nas aduaneiras).

E é dessa necessidade de soluções voltadas à realidade brasileira que grande parte dos carros que vamos conhecer surgiram. Os construtores abaixo, cada um em sua realidade, merecem grande respeito e admiração pelo que já atingiram, e para mim são prova mais do que suficiente de que o automobilismo brasileiro tem sim futuro. Mas sem mais delongas, vamos ao Top 10 de hoje:

GT Race Cars: GeeBee R5

Um dos projetos para as provas de Endurance, o GeeBee R5 é o protótipo mais recente apresentado pela GT Race Cars, do paulista Jaime Gulinelli. Concebido para a categoria P3 da Endurance Brasil, o carro teve como piloto de testes o grande Maurizio Sala, outro daqueles injustiçados pela mídia brasileira, mas com extensa carreira internacional e que nas provas de longa duração pilotou máquinas icônicas como o Porsche 962 C, Mazda 787B, McLaren F1 GTR e Lotus Elise t1 em provas do campeonato japonês, FIA GT e nas 24 Horas de Le Mans.

O GeeBee R5 é um protótipo de construção tubular, equipado com motor Opel 2.0 e utilizando diversos componentes de carros de Fórmula 3. Desde 2016, o modelo já participou de uma edição dos 500 km de São Paulo e de diversas provas do campeonato paulista de Força Livre, sempre se mostrando muito competitivo. Para 2020 a equipe F/Promo Endurance Racing irá trazer o belo protótipo campineiro para as pistas do Império Endurance Brasil.

Contato do fabricante: Facebook

Minelli Racing Cars: MG15

Após a queda de diversas categorias escola do automobilismo brasileiro, a Fórmula Inter surgiu em 2016 idealizada pelo empresário Marcos Galassi, para ser uma opção acessível de monoposto à jovens pilotos recém-saídos do kartismo. Para isso, diferente de outras categorias, o piloto não tem a posse do carro, pagando apenas pelo uso, com toda a infraestrutura sendo fornecida pela organização da categoria. O carro, chamado MG15, é resultado da junção do experiente construtor José Minelli da Minelli Racing Cars e jovens engenheiros da FEI, com mais de 900 horas de simulação CFD e estrutural. Com estrutura tubular, o monoposto paulista tem construção voltada para a segurança, com crash box dianteiro e traseiro, além de side pods estruturais em plano inclinado. O resultado final é um carro com apenas 490 kg (sem combustível), que equipado com um motor Ford Duratec 2.0 de 191 HP atinge tempos de volta inferiores a 1m50s em Interlagos.

Contato do fabricante: Website / Facebook / Instagram

Metalmoro / JLM Racing: AJR

Apresentado em 2017, o AJR é a visão do piloto Juliano Moro para um protótipo de provas de endurance. Com aerodinâmica desenvolvida pela empresa Dynamic Flow Solutions e chassi desenvolvido pelo tradicional fabricante gaúcho Metalmoro. O primeiro carro foi apresentado com motorização Honda K20 Turbo e transeixo Xtrac direto da LMP3, além de novidades como freios de carbono. Após encontrar problemas de confiabilidade nas primeiras provas, o protótipo ganhou vida mesmo ao receber o motor Chevrolet LS3 V8 similar ao da Stock Car Brasil. O resultado é atualmente o protótipo mais veloz do país com 20 pole-positions nos 20 treinos classificatórios onde um AJR participou.

Em 2018, diversas equipes migraram para os AJR, com pelo menos 6 carros concluídos e uma grande variedade de motores: além de Honda K20 e Chevy LS3, surgiram modelos com motorização Honda K24 Turbo e Audi 2.0 Turbo, num ano que culminou com o título da categoria P1 do Império Endurance Brasil para o piloto Emilio Padrón. A temporada de 2019 foi a de consagração do AJR, trazendo atualizações aerodinâmicas a cada prova, incluindo a adoção de um sistema de asa móvel, estilo F1. Dois novos carros foram entregues, para um total de 8 protótipos, com a inclusão de uma nova motorização Nissan V6, inicialmente aspirada e agora com adoção de supercharger. O resultado dessa evolução constante: 6 vitórias na geral em 8 provas, com a dupla Nilson e José Roberto Ribeiro faturando os títulos nas categorias Geral e P1 do Império Endurance Brasil.

Contato do fabricante: Website / Facebook / Instagram

Sigma Kart: Sigma P1

Apresentado em 2017, o Sigma P1 nasceu para as disputas das provas de longa duração nas pistas brasileiras. Concebido pelos engenheiros Evandro Flesh e Pedro Fetter, o carro nasceu a partir de um conceito inovador: a transmissão convencional foi dispensada, e em seu lugar foi utilizado um motor elétrico para preencher as lacunas de torque do motor Audi 4.2 V8 Turbo. Após a estréia nas 12 Horas de Tarumã de 2017, o time de engenheiros concluiu que, apesar de viável, o desenvolvimento do sistema híbrido tomaria muito tempo e recursos, decidindo por um caminho mais convencional, ao adotar um transeixo Xtrac de 6 marchas. Desde então o modelo recebeu duas atualizações (em 2018 e 2019), incluindo um sistema de DRS na asa traseira. Para 2020, a expectativa é de que um segundo Sigma venha para as pistas, com melhorias para colocá-lo na disputa da categoria P1 da Endurance Brasil.

Contato do fabricante: Website / Facebook / Instagram

Fórmula Vee Brazil: Naja 01D

Outro monoposto nacional para categorias escola, o Naja 01D é uma evolução do modelo Naja 01 utilizado pela Fórmula Vee Brasil. À primeira vista, chama a atenção a barbatana dorsal, porém essa não é a única modificação do chassis: o carro como um todo sofreu um redesign, com foco na melhoria da proteção ao piloto, e substituindo conceitos antigos como a suspensão traseira “swing axle” e transmissão 4 marchas por uma suspensão traseira multilink e transmissão longitudinal de 5 marchas retirada do Volkswagen Gol. Equipado com motor VW EA111 1.6 de cerca de 120 cavalos, os bólidos projetados pelo experiente engenheiro Ricardo Divila em conjunto com a GT Race Cars se mostraram velozes, com um pódio já na primeira prova.

Contato do fabricante: Website / Facebook / Instagram

Giaffone Racing: Buggy V8

Saindo do asfalto, outra revelação da engenharia automobilística brasileira é o Buggy V8 da Giaffone Racing. Responsável pela construção e suporte aos bólidos da Stock Car desde a virada do milênio, a empresa paulista começou a se aventurar nos rallies cross-country preparando os motores de protótipos como o Sherpa e o T-Rex. Com esse envolvimento inicial, a Giaffone percebeu que existia uma lacuna para modelos de custo inferior aos protótipos 4×4 nas competições nacionais, e partiu para o desenvolvimento de um buggy similar aos modelos da categoria T1.3 do mundial da FIA. A estreia do carro foi no Rally Caminhos da Neve em 2018, com vitória da dupla Reinaldo Varela / Gustavo Gugelmin, à qual se seguiram outras vitórias nos campeonatos Paraguaio e Brasileiro, frente a modelos consagrados como a Ford Ranger FIA T1 desenvolvida pela sul-africana Neil Woolridge Motorsports.

Contato do fabricante: Facebook / Instagram

Royal Racing Team: Spirit APW

Enquanto o automobilismo das regiões sul e sudeste recebem maior foco da mídia, o automobilismo da região nordeste é também merecedor de destaque, pela variedade de categorias e belas disputas proporcionadas. Em especial, merece destaque o automobilismo cearense, que a despeito de tdas as dificuldades e mesmo com o Autódromo Virgílo Távora correndo risco de dar lugar a algum empreendimento imobiliário (como alguns outros autódromos brasileiros) continua com as disputas do campeonato cearense de esporte-protótipos. Disputado por máquinas locais como o CTM e Spirit 1.8, nos últimos anos o certame vivenciou a chegada dos protótipos Aldee Spyder. Desenvolvido por Alexandre Romcy e Silvio Camelo, o Spirit APW surgiu em 2018 como uma nova roupagem para os CTM, voltado para provas de longa duração.

MESGAFERRE: Puma P052

Outra boa novidade dos últimos tempos é o retorno da Puma, pela mão dos empresários Fernando Mesquita e Reginaldo Galafazzi. Com o slogan “Nas pistas nascemos, pelas pistas voltaremos”, a dupla promete voltar com a icônica marca de esportivos brasileira. Para isso, dois modelos nasceram: o P052, voltado para as pistas e o P053, para as ruas. Sobre o P052, o modelo servirá de base para o desenvolvimento do modelo de rua, utilizando a experiência adquirida nas pistas. Com estrutura tubular e carroceria de fibra de vidro, o carro tem peso de apenas 570 kg, e hoje é movido por um motor EA111 1.6 de 120 cv. Apesar da pouca potência, e de estar utilizando pneus radiais, os pilotos de testes Gabriel Maia e Luiz Costa tem obtido bom desempenho do carro, que deve competir em categorias como Endurance Brasil e Força Livre Paulista.

Contato do fabricante: Facebook / Instagram

Roco Racing Cars: Roco 001

Uma das grandes novidades da temporada 2019 da Endurance Brasil foi o protótipo Roco 001, da Roco Racing Cars. Criado pelos pilotos Robbi Perez e José Cordova, o Roco foi desenvolvido para a categoria P3 e é baseado em um chassi Ralt RT34 de Fórmula 3, que recebeu nova carenagem cobrindo as rodas dianteiras e traseiras, além de uma nova asa traseira aproveitando a largura total do carro. Como mecânica, o Roco recebeu um motor Suzuki 1340 cc com preparação da Mecânica Overboost. O time estreou o carro nas 4 Horas de Goiânia, onde enfrentaram diversos problemas, típicos de um carro novo. Em seguida, voltaram para a etapa de Interlagos onde obtiveram a quinta colocação na classificação final, com participações ainda nas 500 Milhas de Londrina e nas 6 Horas de Curitiba, onde obtiveram a quarta colocação na categoria P3.

Contato do fabricante: Instagram

Gear up Racing Engineering: DTR 01

Outro protótipo da nova geração, o DTR01 foi desenvolvido pela Gear up Racing em parceria com a equipe DTR Motorsports de Francesco Ventre e Eduardo Dieter. Tal como o Sigma, foi projetado por um grupo de engenheiros brasileiros, que fizeram parte do time de Fórmula SAE da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), e nasceu para substituir o MR18 da DTR. Partindo da mesma mecânica básica do antigo MR18 (motor Honda K20 + transeixo Xtrac), um novo chassi tubular foi construído, com aerodinâmica desenvolvida em CFD. A equipe fez sua estréia em competições nas 3 Horas de Santa Cruz do Sul de 2019, e mesmo enfrentando alguns problemas (normal para um projeto novo como esse), o DTR01 conseguiu como melhor volta um tempo de 1m14s918, muito próximo dos AJR e que seria suficiente para a sétima posição no grid de largada.

Contato do fabricante: Facebook / Instagram

Explicando as categorias do automobilismo mundial – parte 5

Após nosso tour pelas categorias de Fórmula do mundo, é hora de voltar os olhos para o que acontece aqui no Brasil. Nosso país tem uma longa tradição nas competições de monopostos, traçando suas raízes à antiga Mecânica Continental, que era uma espécie de Fórmula 1 brasileira, onde carros como Maserati e Ferrari da F1 recebiam potentes (e pesados) motores V8 americanos. No passado, tivemos competições de categorias como Fórmula Ford, Vee, Renault, Chevrolet entre outras, porém após anos de má gestão e desinteresse do público e de empresas, chegamos ao ponto em que o campeonato brasileiro de Fórmula 3 deixou de ser disputado. Contudo, o futuro promete, e desde 2015 diversas categorias têm ressurgido a nível nacional e regional, abrindo espaço para que novos talentos possam galgar os primeiros passos rumo às principais categorias do automobilismo mundial.

Fórmula 1.4

Regida pela Federação Gaúcha de Automobilismo, a Fórmula 1.4 é uma categoria que promete uma porta de entrada para os monopostos com custos acessíveis. O carro é baseado no monoposto da extinta Fórmula Júnior da CBA, mantendo o chassi tubular projetado por Edgardo Fernandez porém recebeu nova carenagem com aerodinâmica revisada e maior proteção lateral para o piloto. O motor é um Chevrolet 1.4 Família 1, com potência superior a 110 cv aliado a uma transmissão Hewland de 4 marchas. Com peso mínimo de 490 kg, o pacote resulta numa relação peso/potência próxima a 5 kg/cv.

Fórmula Inter

Regida pela Federação Paulista, a Fórmula Inter é uma categoria lançada em 2015, cuja primeira corrida foi realizada em dezembro de 2016. O nome é em homenagem ao autódromo de Interlagos, e para 2020 estão previstas 10 etapas por todo o Brasil, em Interlagos, Londrina, Cascavel, Goiânia e em uma pista gaúcha ainda a ser definida. Além disso, está previsto um round extra no oval do circuito de Rafaela, na Argentina.

O carro da F Inter, chamado Minelli MG15, foi inteiramente projetado e construído no Brasil por uma equipe de engenheiros da FEI com larga experiência em competições da Fórmula SAE em associação ao tradicional construtor de veículos de competição Minelli Racing. Com estrutura tubular, o modelo preza pela segurança, tendo crash box frontal e nas laterais, e foi todo projetado em CAD e com o auxílio de simulações computacionais de CFD e estruturais. O motor é um Ford Duratec preparado para render 191 HP, e o carro pesa apenas 490 kg (peso seco e sem piloto). Diferente de outras categorias, a F Inter trabalha num sistema de “aluguel” do carro, onde a organização da categoria disponibiliza todo o suporte técnico.

Fórmula Vee Brazil

A Fórmula Vee paulista segue a mesma receita básica de diversos campeonatos da categoria pelo mundo, com mecânica simples e custos acessíveis. Aqui a receita é o motor VW EA111 1.6 e existem duas opções de chassi: o Naja 01 e o Naja 01-D. Ambos utilizam suspensão dianteira original do Fusca/Brasília, porém o Naja 01 utiliza também a suspensão traseira de braços oscilantes dos modelos VW, e a transmissão de 4 marchas desses modelos. Já o Naja 01-D utiliza suspensão traseira multilink, com amortecedores da Twister e a transmissão de 5 marchas do VW Gol com motor longitudinal, enquanto a carenagem é livre. Apesar da potência relativamente baixa (111 cv), o baixo peso de 490 kg e os pneus são radiais Pirelli P1 garantem boas disputas e fazem com que o carro se torne divertido de guiar.

Fórmula 1.600 LDA

A Fórmula 1600 LDA é uma categoria escola chancelada pela LDA (Liga Desportiva Automobilista) e baseada no estado de São Paulo. O chassi utilizado é o Mangusto R5, projetado pela EBTech, e o motor utilizado é um Ford Zetec Rocam com cerca de 110 cv. A base é similar a um monoposto da Fórmula Vee, inclusive com utilização da transmissão dos modelos VW como Fusca e Brasília. Os pneus utilizados são Pirelli radiais, e o peso mínimo é de 590 kg com piloto.

Fórmula Academy SUDAM

A Fórmula Academy é uma categoria lançada em 2018 utilizando os chassis Signatech e motores E.torQ 1.8L da antiga Fórmula Futuro. Com chassi em fibra de carbono e um pacote de eletrônica embarcada avançada, a categoria está entre as mais avançadas do país. A categoria é promovida pelo empresário Linneu Linardi, com chancela da Codasur e CBA, com rodadas disputadas em autódromos do Brasil e Uruguai. Cada rodada é composta de duas provas, com custo de cerca de R$ 24.000 por rodada dupla. A categoria utiliza pneus slick Pirelli, e com potência de 150 HP os carros estão entre os Fórmula mais velozes em atividade pelo país.

Fórmula Delta

Mais recente categoria de monopostos do Brasil, a Fórmula Delta é encabeçada pelo piloto e empresário gaúcho Mauro Kern, com suporte da Mitsubishi Motors. O carro utilizado é uma evolução do Minelli M3 de Fórmula Ford, com aerodinâmica revisada, além de uma revisão nos sistemas de proteção ao piloto incluindo a primazia na adoção do HALO entre os monopostos nacionais. Como Powertrain, outra novidade é a adoção de uma transmissão sequencial de 5 marchas de fabricação própria da Minelli, que trabalhará em conjunto q um motor Mitsubishi 2.0 MIVEC, com potência de 185 cv limitada pelo restritor da admissão. A expectativa é que o primeiro campeonato seja disputado em 2020, com 8 rodadas duplas em pistas como o Velo Città, Interlagos e Londrina.

Onde acompanhar

Fórmula 1.4: http://www.fgars.org/

Fórmula Inter: http://www.formulainter.com.br/

Fórmula Vee Brazil: https://www.fvee.com.br/

Fórmula 1.600 LDA: http://www.f1600.com.br/

Fórmula Academy SUDAM: http://f4sudamericana.com/pt/

Fórmula Delta: https://www.facebook.com/formuladelta/

Império Endurance Brasil: um guia das categorias

Numa época em que o automobilismo fica cada dia mais engessado e baseado em sistemas de balanço de performance, os fãs mais fervorosos sonham sobre como seria um campeonato onde imperasse a liberdade técnica, semelhante ao que campeonatos como Can-Am e Interserie foram no passado. Ainda que exista categoria Unlimited de Pikes Peak, que trouxe a vida carros como o Volkswagen ID.R e o Peugeot 208 Pikes Peak, essa é apenas uma das categorias de uma prova de cerca de 20 km, disputada uma vez ao ano. Outras categorias, como as de Time Attack, também permitem que os engenheiros pensem “fora da caixa”, mas ainda assim sem uma disputa roda a roda nas pistas.

Então, o que você pensaria se eu lhe dissesse que existe um campeonato dos sonhos como esse onde, além dos requisitos de segurança, apenas peso e cilindrada do motor são controlados?

Esse Campeonato não só existe, como é disputado aqui mesmo no Brasil. Organizado pela APE (Associação dos Pilotos de Endurance), o Império Endurance Brasil tem raízes em 2014, quando a APE passou a organizar o Campeonato Gaúcho de Endurance. Até então, campeonatos de provas de longa duração eram perenes no Brasil, oscilando entre períodos de baixa e pontos altos, como o início dos anos 2000 que viu máquinas como o Lister Storm de Alcides Diniz, o protótipo ZF-Riley & Scott dos Giaffone e o Audi TT DTM dos Negrão disputando as vitórias nas pistas.

  • Lister Storm GT

Sob a organização da APE, o que era um campeonato regional passou a crescer no cenário nacional, atraindo pilotos de diversos estados, até que outro ponto de inflexão foi atingido. A partir de 2017, a APE conseguiu um acordo de patrocínio máster com a Cervejaria Imperial, primeiro com a marca de energéticos Dopamina, e depois com a cerveja Império. Com esse suporte adicional, a cobertura do campeonato melhorou, com transmissões ao vivo pelos canais do YouTube e Facebook da categoria, atraindo ainda mais competidores. Como em outros campeonatos de endurance, as corridas contam com a participação de protótipos e GTs, num total de 8 categorias (4 por tipo de carro), além de uma categoria geral, compondo um grid bastante eclético. Para facilitar a identificação dos carros, protótipos devem obrigatoriamente utilizar faróis com lente branca, enquanto os GTs devem utilizar a cor amarela.

Entre os pilotos, cada prova é uma mistura de profissionais, amadores e gentleman drivers, com idade variando dos 20 a mais de 70 anos. Alguns nomes familiares que competiram na temporada 2019 são: Daniel Serra, Ricardo Maurício, Marcos Gomes, Alexandre Negrão, Sérgio Jimenez, David Muffato e Tarso Marques, entre muitos outros.

Essa combinação de máquinas e pilotos resulta em grande equilíbrio, onde ao menos 10 carros entram com chances reais de vitória a cada prova. Como testemunho da elevada competitividade da categoria, as oito provas da temporada 2019 tiveram quatro vencedores diferentes, divididos 6-2 entre protótipos e GTs. Mais ainda, apenas duas vezes o vencedor conseguiu aplicar uma volta sobre o segundo colocado, e o título da categoria geral foi decidido apenas na última da prova de encerramento do campeonato.

Para 2020, o Endurance Brasil promete emoções ainda maiores, com novos carros e pilotos se juntando em diversas categorias, bem como o anúncio de que as provas terão cobertura ao vivo pelos canais SporTV, em adição ao live streams do YouTube e Facebook.

Conhecendo as categorias

P1

Atuais campeões: Nilson Ribeiro / José Roberto Ribeiro (AJR #65)

  • #5 - Metalmoro JLM AJR - Chevrolet LS3 6.2 V8

Principal categoria entre os protótipos, a P1 também é a que tem os carros mais velozes da pista. Atualmente o campeonato é dominado pelos melhores protótipos construídos no país, porém carros importados como os Ginetta G57 e G58 e carros homologados como LMP3 também podem ser inscritos, ainda que nenhum LMP3 tenha sido confirmado até o momento, mesmo com os carros podendo competir sem restrições de potência do motor. Ainda assim, podemos esperar que dois modelos Ginetta G57 sejam inscritos pelo Team Ginetta Brasil. Mas os carros mais impressionantes do grid são mesmo os protótipos tubulares construídos localmente, como o AJR, Sigma e DTR. Em adição aos limites de peso e cilindrada, algumas opções de motores importados são proibidos, para evitar uma escalada de custos que possa ferir o equilíbrio financeiro e competitivo do campeonato.

Fora isso, a competição é do tipo Fórmula Libre, o que permite que conceitos como asa-móvel e trens de força híbrido podem ser explorados, sem necessidade de zonas de ativação e regulamentos complexos ditando como armazenar e utilizar energia. Além dessa liberdade técnica, a categoria permite que as equipes escolham os fornecedores de pneus como bem entenderem, algo que já saiu de cena da maioria das categorias automobilísticas de ponta. Atualmente, os competidores utilizam pneus fornecidos pela Michelin e Pirelli, que possuem faixas de trabalho e durabilidades diferentes, adicionando mais um fator à equação de cada prova.

GT3

Atuais campeões: Xandy Negrão / Xandinho Negrão (Mercedes AMG #9)

  • #8 Mercedes-Benz AMG GT3

Como o nome entrega, a GT3 é a categoria de carros que sejam assim homologados pela FIA ou por alguma entidade nacional. Ao contrário de outros campeonatos que utilizam esse tipo de carros, no Endurance Brasil os GT3 não sofrem um BoP, o que significa dizer que correm sem restritores de potência, com diferenciação apenas no peso mínimo. Carros que competem nessa categoria incluem Ferrari 488 (carro que obteve a pole-position da categoria GTD nas 24 Horas de Daytona), Porsche 911 GT3 R, Mercedes AMG e Lamgorghini Huracàn.

GT3 Light

Atuais campeões: Sérgio Ribas / Guilherme Ribas (Aston Martin #63)

  • #18 Lamborghini Gallardo LP560 GT3

Até 2018, todos os carros GT3 competiam dentro da mesma classe, até que a divisão Light foi criada em 2019. Destinada a carros construídos antes 2012, a GT3 Light foi criada após a organização perceber de que modelos mais antigos, muitos vindos da antiga GT Brasil, não eram capazes de acompanhar o ritmo dos modelos mais recentes. Competem nessa categoria carros como Ferrari 458, Aston Martin Vantage V12, Lamborghini Gallardo LP560 e LP600+, além de carros da Stock Car sem restritores na admissão.

P2

Atuais campeões: Paulo Sousa / Mauro Kern (Tubarão IX #32)

  • #4 Sigma P1 - Audi 4.2 V8 Turbo

A categoria P2 é uma espécie de categoria legado, pois após 2018 ficou claro que a chegada de modelos como o AJR havia tornado obsoletos diversos protótipos de construção mais antiga. Com isso, um novo regulamento para a P1 foi revisado a partir de 2019, e o regulamento vigente até 2018 passou a ser utilizado para a P2. A principal diferença entre as categorias está na capacidade máxima do tanque de combustível, inferior na P2, porém as demais liberdades de projeto e construção são similares à P1. Competem pela P2 tanto carros com rodas aro 13, como o Predador, Tubarão e Scorpion, quanto carros com rodas aro 18 como GeeBee R1, Metalmoro MR18 e MCR Lamborghini. Teoricamente, qualquer carro de estrutura tubular construído antes de 2018 é elegível para a categoria, de forma que modelos como os Daytona Prototypes tubulares e Radical SR8 poderiam participar dessa categoria.

GT4

Atual campeão: Renan Guerra (Ginetta G55 #555)

  • #3 Mercedes-Benz AMG GT4

A GT4 é a categoria para carros com esse tipo de homologação, seja ela da FIA ou a nível nacional. No Endurance Brasil, é empregado o mesmo BoP aplicado originalmente pela entidade certificadora. Entre os modelos da categoria estão carros como Mercedes AMG, Ginetta G55 e McLaren 570S. Também participou de parte da temporada 2019 o BMW M3 GTR (E92) de Henry Visconde, um carro originalmente de rua e que foi preparado para competições aqui mesmo no Brasil.

P3

Atuais campeões: Carlos Antunes / Yuri Antunes (MRX #72)

  • #2 VBS 01 [Dallara F394] - Opel 2.0 16V

Essa é a classe para os protótipos menores, normalmente utilizando rodas de 13 polegadas e motores com cilindrada acima de 2.000 cm³, ou conjunto motor/transmissão de motocicletas com até 1.500 cm³, como o protótipo inglês Radical SR3. Não é incomum que carros dessa categoria sejam construídos utilizando componentes oriundos de monopostos da Fórmula 3, tais como transmissões, componentes de suspensão e até pneus, chegando ao ponto de um antigo chassi Ralt de F3 ser convertido para esporte-protótipo. Apesar de não disputarem a vitória na geral, os carros da P3 têm velocidade e confiabilidade suficiente para estar constantemente no top 10 da classificação geral. O modelo mais comum utilizado pelos competidores é o MRX da Metalmoro, um carro de desempenho já comprovado no cenário nacional, e que já conquistou diversas vitórias importantes.

GT4 Light

Atuais campeões: Júnior Victorette / Marcelo Karam (Mercedes CLA 45 AMG #14 / Audi RS3 TCR #14)

  • #10 Chevrolet Cruze - Berta 2.0 (Brasileiro de Turismo)

A categoria de entrada entre os GTs é mais uma categoria de carros de turismo do que gran turismo propriamente ditos. Entre os carros permitidos nessa classe estão modelos FIA TCR, Stock Cars com restritores, carros do Campeonato Brasileiro de Turismo, além de carros de categorias monomarca como o Trofeo Maserati, Mercedes-Benz Challenge e Trofeo Linea.

P4

Atuais campeões: Ricardo Haag / Mário Marcondes (MRX #34)

  • #40 Aldee RTT - Volkswagen 2.0 8V

Categoria de entrada entre os protótipos do Endurance Brasil, a P4 é focada em baixo custo. Para atingir esse objetivo, os motores são limitados a 2,1 litros e 2 válvulas por cilindro (normalmente motores AP), e os pneus devem obrigatoriamente ser Pirelli nacionais. A categoria permite a utilização de transmissões sequenciais importadas, porém com uma penalidade de peso em relação aos transeixos nacionais com trocas em H. Os carros mais comuns dentro dessa categoria são os protótipos Aldee Spyder, com modelos como MRX, MCR e Aldee RTT também participando sendo inscritos por alguns competidores.

Nota: os carros apresentados nessa postagem são uma coletânea dos modelos que participaram de provas nas temporadas 2018 e 2019, bem como alguns já anunciados para 2020. Não significa que todos estarão presentes, bem como existem novos carros que estão a caminho do campeonato. Próximo a primeira etapa teremos uma postagem com os principais competidores e possíveis novidades para a temporada 2020.