Manic PA-II

Na publicação de hoje vamos conhecer o Manic PA-II, um exótico projeto canadense que misteriosamente apareceu em terras brasileiras nos anos 1970, e cujo paradeiro é desconhecido.

Sobre a Manic

Alpine A110. 📷 Hagerty.

A história da fabricante canadense Manic está profundamente ligada à de seu fundador, Jacques About, cuja visão deu origem a um dos mais singulares projetos esportivos da indústria automobilística do Canadá. Nascido na França em 1938, About construiu uma carreira eclética incluindo passagens como jornalista, piloto e dublê, antes de se estabelecer definitivamente no Canadá. Sua entrada no setor automotivo ocorreu através da Renault, onde foi encarregado de avaliar o potencial comercial do esportivo Alpine A110 no mercado canadense. Apesar de um parecer favorável, a decisão da montadora francesa de não avançar com o projeto levou About a seguir seu próprio caminho, motivado pela convicção de que havia espaço para um esportivo leve e acessível adaptado à realidade canadense.

Vista aérea da barragem Manic-5.

Foi nesse contexto que, em 1968, surgiu a Les Automobiles Manic. O nome “Manic” foi inspirado na região do rio Manicouagan, no Québec, e especialmente no complexo hidrelétrico Manic-5, símbolo de modernidade e ambição industrial canadense — valores que About buscava refletir em sua empresa.

Manic-GRAC. 📷 Canadian Automotive Museum

Antes mesmo de lançar um automóvel de rua, contudo, ele compreendeu a importância de estabelecer credibilidade técnica por meio do automobilismo. Para isso, obteve licença para produzir um monoposto baseado em um projeto francês da GRAC, destinado à Fórmula C. O modelo resultante, conhecido como Manic-GRAC, foi equipado com motorização Alfa Romeo e rapidamente demonstrou competitividade em campeonatos locais, conquistando resultados expressivos e contribuindo para consolidar a reputação técnica da jovem fabricante.

Foto de divulgação da Manic com o GT e o PA-II. 📷Canadian Automotive Museum.

Esse esforço inicial no automobilismo foi fundamental para viabilizar o passo seguinte: o desenvolvimento de um carro esportivo de produção. Com apoio financeiro proveniente de investidores privados, incentivos governamentais e parcerias industriais, About liderou a criação do Manic GT, apresentado ao público no Salão de Montreal de 1969. O modelo incorporava uma proposta clara: unir design europeu, leveza estrutural — graças à carroceria em fibra de vidro — e mecânica derivada da Renault, em especial do Renault 8, resultando em um esportivo acessível e tecnicamente interessante. Havia, inclusive, planos ambiciosos de produção em escala, com metas que alcançavam milhares de unidades anuais.

Manic GT e PA-II durante no New York Auto Show de 1971. 📷Canadian Automotive Museum.

Entretanto, apesar do entusiasmo inicial e da recepção positiva, o projeto revelou-se estruturalmente frágil. A dependência de componentes fornecidos pela Renault expôs a Manic a limitações logísticas e comerciais, enquanto decisões estratégicas, como a construção de uma nova planta industrial, ampliaram significativamente a pressão financeira sobre a empresa. Em pouco tempo, dificuldades de fornecimento, custos elevados e fluxo de caixa insuficiente comprometeram a continuidade do empreendimento. A produção do Manic GT, iniciada em 1969, foi encerrada já em 1971, com cerca de 160 exemplares fabricados, selando o fim prematuro da empresa.

Sobre o Manic PA-II

Nesse contexto, o PA II surgiu como a evolução natural de uma filosofia que desde o início buscava legitimação nas pistas. O Manic PA-II foi desenvolvido no final da década de 1960 como uma evolução natural do envolvimento da empresa com o automobilismo, iniciado com o monoposto Manic-GRAC.

Vista frontal do Manic PA-II. 📷Le Guide de L’Auto.

Tratava-se de um carro projetado especificamente para provas de endurance segundo o regulamento do Grupo 6, concebido como um protótipo puro de competição, incorporando soluções típicas dos sport-prototypes europeus da época. 

Vista traseira do Manic PA-II. 📷Le Guide de L’Auto.

O chassi foi inspirado em monopostos de Fórmula 2 da Lotus, com carroceria estilo barchetta (aberta). O protótipo foi equipado com um motor de quatro cilindros em linha preparado por Brian Hart, especialista em motores de competição acoplado a um transeixo Hewland.

Manic PA-II durante a largada das 6 Horas de Mont-Tremblant. 📷autocourse.ca.

Esse conjunto posicionava o PA II tecnicamente próximo de protótipos europeus contemporâneos, evidenciando a ambição da Manic em competir em um nível internacional. O único registro competitivo do PA II ocorreu em outubro de 1970, durante as 6 Horas de Mont-Tremblant (6 Hours of ACAM), uma prova de endurance realizada no Canadá, resultando em um abandono devido a uma quebra da suspensão.

Havia planos para expandir o programa esportivo com até três carros, possivelmente pilotados por nomes como Jacques Couture e John Cannon, o que indica uma estratégia mais ampla de competição — que, no entanto, nunca se concretizou.Após sua breve participação em competições, o Manic PA II não teve continuidade, e o carro foi armazenado na fábrica da Manic. Com a falência da empresa em 1971, acredita-se que tenha sido vendido junto com os ativos durante a liquidação.

Manic PA-II durante o Fittipaldi Motor Show em 1972. 📷Rogério PD Luz.

Curiosamente, o protótipo surgiu no Brasil em 1972 durante o Fittipaldi Motor Show, como atesta o registro publicado pelo fotógrafo Rogério P.D. Luz, que gentilmente cedeu as imagens para essa publicação. Não há registros amplos de sobrevivência, restauração ou uso posterior, o que contribui para seu status de projeto praticamente perdido na história do automobilismo canadense.

Manic PA-II durante o Fittipaldi Motor Show em 1972. 📷Rogério PD Luz.

Apesar de sua curta existência, o Manic PA II representa um dos momentos mais ambiciosos da indústria automotiva esportiva do Canadá. Ele evidencia a tentativa da Manic de ir além de um fabricante de carros de rua e se posicionar como um verdadeiro construtor de protótipos de competição, alinhado com tendências internacionais da época.

Agradecimentos

Agradecemos ao fotógrafo Rogério PD Luz que nos cedeu o direito de reproduzir seus registros para essa postagem e para ilustrar outras publicações do site (em breve mais novidades!). Na verdade, a idéia para essa publicação veio justamente da curiosidade após ver um dos muitos registros do nosso automobilismo feitos por ele, então aproveitem para seguir a página Facebook que vêm sendo atualizada regularmente com registros de diversas épocas e categorias.

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Fontes:

The 1961–77 Alpine A110 packs a rally pedigree and French charisma. Disponível em: https://www.hagerty.com/media/market-trends/valuation/1961-77-alpine-a110-packs-a-rally-pedigree-and-french-charisma/

La folle histoire de la Manic. Disponível em: https://www.7jours.ca/2022/06/11/la-folle-histoire-de-la-manic

1971 Manic GT. Disponível em: https://www.canadianautomotivemuseum.com/cars/1971-manic-gt

The Brief and Tumultuous Tale of Canada’s Manic GT. Disponível em: https://www.hagerty.com/media/car-profiles/the-brief-and-tumultuous-tale-of-canadas-manic-gt/

La Manic : un documentaire sur la voiture québécoise. Disponível em: https://www.guideautoweb.com/articles/57126/la-manic-un-documentaire-sur-la-voiture-quebecoise/

Avis de recherche : connaissez-vous cette voiture québécoise? Disponível em: https://www.guideautoweb.com/articles/57222/avis-de-recherche-connaissez-vous-cette-voiture-quebecoise/

Les 6 Heures ACAM du Circuit. Disponível em: https://www.guideautoweb.com/articles/57222/avis-de-recherche-connaissez-vous-cette-voiture-quebecoise/

The Manic GT- Canadian Automotive Museum Talk. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FzqNrpJLLq8

Manic GT. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Manic_GT

One thought on “Manic PA-II

  1. Sensacional, outra raridade!!!

    Será que esse negocio ficou por aqui! ? Seria fantástico reaparecer, duvidas e mais duvidas, ja imaginou que isto esteja perdido em alguma garagem tupiniquim!!!!

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