A Ferrari construiu sua reputação como uma marca extremamente reservada quando o assunto é fornecer motores a terceiros. Diferente de outros fabricantes, Maranello sempre tratou seus propulsores como ativos estratégicos, cedidos apenas em circunstâncias muito específicas e, na maioria dos casos, fora de qualquer programa oficial de fábrica. Por isso, cada projeto que utilizou um motor Ferrari longe dos carros “de sangue puro” da Scuderia carrega, por si só, um caráter excepcional.
Neste especial, você vai conhecer carros de corrida e protótipos que desafiaram essa tradição, seja por meio de acordos pontuais, iniciativas privadas, reaproveitamento de motores de rua ou projetos que jamais contaram com envolvimento direto da Ferrari. De Indianápolis ao automobilismo brasileiro, do Grupo C à Fórmula 1, essas histórias revelam como, mesmo sem apoio oficial, o simples uso de um motor Ferrari elevava o prestígio – e a complexidade – de qualquer projeto.
1. 1956 – Kurtis Kraft Ferrari Special

Na década de 1950 as 500 Milhas de Indianápolis faziam parte do Campeonato Mundial de Fórmula 1, ainda que seguissem um regulamento e formato de prova completamente diferente das demais etapas do campeonato. A equipe de Enzo Ferrari já se destacava nessa época nas provas européias, porém a tentativa de adaptar o modelo 375 para a Indy 500 de 1952 não obteve sucesso. Em 1956, por iniciativa de Luigi Chinetti, um novo motor 4.5 V12 baseado no da 375 foi encomendado, dessa vez para ser montado em um chassi construído pela Kurtis-Kraft, fabricante norte-americano que vivia um período de dominância na Indy 500, tendo vencido todas as provas entre 1950 e 1955. O carro recebeu patrocínio da Bardahl, sendo também conhecido como Bardahl Special, porém mostrou-se difícil de acertar, com problemas de distribuição de peso, e superaquecimento. Além disso, um problema no sistema de alimentação de combustível impediu que o carro pudesse se classificar, se tornando uma página obscura da história da marca do Cavallino Rampante.
2. 1970 – Fúria-Ferrari

Toni Bianco já era um nome conhecido do automobilismo brasileiro nos anos 60, após ter trabalhado em diversos projetos vitoriosos como o Willys Gavéa, o protótipo Bino e culminando no protótipo Fúria, que nasceu no início dos anos 70. Um dos diferenciais desse projeto era que diversas motorizações poderiam ser utilizadas graças a uma estrutura traseira móvel que poderia ser modificada e substituída para permitir diversos tipos de instalação. Foram fabricados protótipos Fúria com motorização FNM 2150, Chevrolet 151 de 4 cilindros, BMW, Lamborghini, Dodge V8 e por encomenda do lendário Camillo Christófaro, foi construído um protótipo Fúria com motorização Ferrari V12 Testa Rossa do carro que fora de Jean Louis Lacerda, acoplada a uma transmissão Hewland FT200 para estrear na Copa Brasil de 1971 competindo da Divisão 5 (carros de fabricação brasileira com motores importados). O Fúria-Ferrari ainda competiu nos 200 Quilômetros de Belo Horizonte em 1972, porém com a iminente proibição de carros e motores importados no automobilismo brasileiro, o Fúria recebeu em 1972 a motorização Chrysler V8 com a qual competiu nas temporadas de 1972 e 1973.
3. 1972 – Momo 5000

Gianpiero Moretti é mais conhecido pela MoMo (Moretti-Monza), tradicional fabricante de volantes e equipamentos para carros esportivos, e também por seu longo histórico nas pistas, em grande parte à bordo de bólidos Ferrari. Em 1971, Moretti decidiu passar de piloto a construtor, contratando o engenheiro italiano Giorgio Valentini que inicialmente desenvolveu um protótipo equipado com motor Abarth 2 litros. Durante o verão europeu de 1972, um segundo carro foi projetado com base no chassi do Momo 2000, porém alargado para receber um motor Ferrari 512M V12 e transeixo Hewland DG600. A primeira versão do carro, chamada Intermedio fez sua estréia nas pistas durante os 500 Quilômetros de Interlagos de 1972, onde teve um desempenho muito aquém do esperado. Com isso, um novo chassi e carenagem foram construídos, resultando no Momo 5000 Finale que competiu na prova de Casale da Interserie em 1974. Desde então, o carro não participou de outras provas e atualmente se encontra na Austrália sem o motor Ferrari, onde deve passar por um processo de restauração. A história completa você pode ler aqui.
4. 1982 – Lancia LC2 Ferrari

Com a obrigatoriedade de utilizar carros enquadrados no regulamento do Grupo C para pontuar no Campeonato Mundial de Marcas, a Lancia se viu obrigada a desenvolver um novo carro para a temporada de 1983. Como o motor 1.4 Turbo do LC2 não era capaz de atingir as metas de consumo de combustível do Grupo C, a Lancia acabou optando por utilizar uma motorização derivada do motor da Ferrari 308, com cilindrada reduzida para 2.6 litros e com a adição de dois turbocompressores KKK. O chassi foi desenvolvido em conjunto pela Abarth e pela Dallara, consistindo em um monocoque de alumínio com carenagem em fibra de carbono e Kevlar. Em geral, o carro era mais rápido que os Porsche 956 em condições de classificação, porém uma série de problemas fizeram com quem esse potencial não se transformasse em vitórias, com apenas 3 triunfos nas quatro temporadas em que o LC2 competiu pela equipe de fábrica da Lancia. Após 1986, o carro continuou participando de provas nas mãos de equipes privadas, porém a evolução da competição tornaram o LC2 obsoleto, em geral lutando para se classificar para os eventos.
5. 1990 – Alfa Romeo SE 048 SP

Com o LC2 se tornando obsoleto, o Grupo Fiat estudava a viabilidade de um sucessor para competir no Grupo C, que no final da década de 1989 rivalizava em popularidade com a Fórmula 1. Inicialmente o plano era desenvolver um novo carro que seria movido pelo motor 3.5 V10 que seria fornecido para a Ligier e foi utilizado no projeto do Alfa Romeo 164 ProCar. O chassi foi desenhado por Giuseppe Petrotta, ex-projetista da Osella porém testes iniciais utilizando um chassi LC2 mostraram que o motor V10 necessitaria de muito investimento para se tornar uma opção viável. Novamente, o Grupo Fiat utilizou da ampla prateleira de suas marcas para buscar o motor Ferrari Tipo 036 V12 utilizado na temporada de 1990. Apesar da empolgação da direção da Alfa Romeo com o programa, o projeto foi considerado muito custoso e arriscado e acabou cancelado em prol do projeto do 155 Super Turismo, que rendeu diversos títulos e uma publicidade mais ligada à linha de produtos da Alfa Romeo na época.
6. 1991 – Minardi M191-Ferrari

Enquanto a maioria dos carros dessa lista foram iniciativas independentes, a Minardi com M191 projetado por Aldo Costa foi a primeira equipe a utilizar motores clientes da Ferrari na Fórmula 1. O carro foi completamente projetado em torno do motor Tipo 037, e tinha como calcanhar de Aquiles a transmissão desenvolvida pela própria Minardi, que apresentava quebras frequentes da embreagem. Ainda assim, o carro era figura fácil no Top 10 dos treinos classificatórios com a dupla italiana Pierluigi Martini e Gianni Morbidelli, conquistando dois quartos lugares em San Marino e Portugal que valeram valiosos 6 pontos para a escuderia italiana, e a sétima posição na classificação de construtores – a melhor da equipe de Faenza em seus 20 anos de Fórmula 1.
7. 1996 – Minelli-Ferrari

Nos anos 90, as Mil Milhas Brasileiras começaram a atrair um nível técnico mais elevado de competidores. Por um lado, a chegada de carros importados como Porsche 911, BMW M3 e outros, traziam um grande desafio às equipes menores, que até então utilizavam carros nacionais modificados, principalmente os já vetustos Opalas da Stock Car. Nesse cenário, algumas equipes começaram a investir em protótipos, sejam eles resgates das antigas Divisão 4 e 5 (Avallone e Lola-Avallone) ou baseados em foras-de-série como Aldee e Aurora. Mas o grande divisor de águas foi o AS Vectra, um carro com conceitos modernos concebido especialmente para as pistas que teve um desempenho excelente na prova de 1995. Nesse cenário, a Minelli Racing Cars, do experiente projetista José Minelli desenvolveu um novo protótipo baseado na mecânica de uma Ferrari 348 batida. Da Ferrari vieram motor, transmissão e freios, enquanto o chassi, carenagem e suspensão foram desenvolvidos pela Minelli Racing. O carro participou das Mil Milhas em 1996 quando largou entre os 10 primeiros e em 1998, quando largou na 12ª posição, abandonando em ambas as provas.
8. 1997 X-250 WSC

Para entender o X250, primeiro precisamos voltar no tempo durante a mudança de regulamento do Grupo C, que viu a adoção de motores 3.5 litros aspirados em uma tentativa de unificar os regulamentos de motorização dos carros esporte com a Fórmula 1. Nessa época a Nissan tinha programas de sucesso tanto no Japão quanto nos Estados Unidos com o regulamento GTP, que era consideravelmente similar ao do Grupo C, porém a mudança de motorização significava que um novo carro deveria ser desenvolvido. O desenvolvimento ficou a cargo de Yoshi Suzuka e da NPTI, que lideravam o desenvolvimento dos protótipos Nissan nessa época. Três monocoques na especificação P35 foram construídos nos Estados Unidos, enquanto uma variante NP35 com entre-eixos mais longo e mais adaptada para as provas curtas do All Japan Sports Car Championship. Enquanto o NP35 chegou a competir em uma prova no Japão, o único P35 jamais chegou a competir, com os programas da Nissan cancelados e o NPTI fechado como efeito da bolha financeira japonesa. Contudo, em 1997 o P35 foi convertido em um protótipo aberto WSC para competir na IMSA por John Christie e um grupo de ex-funcionários do NPTI. O carro foi renomeado X-250, em homenagem aos 250 funcionários que trabalhavam no NPTI antes de seu fechamento, e recebeu uma motorização Ferrari 3.4 V8 baseada no motor da Ferrari 348, além das modificações necessárias para se adaptar ao regulamento como fundo plano, santantonio de aço e a remoção do teto. Nessa configuração, o carro participou das 12 Horas de Sebring, abandonando após 21 voltas, marcando sua única prova.
9. 2001 – Dallara Euroc Racecar

O Euroc Racer é um protótipo com motor dianteiro destinado ao Campeonato Europeu de Roadster, série criada por nomes muito conhecidos no mundo do automobilismo: Jochen Neerspasch (gerente do alemão de Super Turismo),Wilhelm Weber (gerente da carreira Michael e Ralph Schumacher), WIlhelm Krämer e Michael Butz. A categoria estava prevista para começar a correr no ano 2000 com 10 etapas pela Europa. Os carros, projetados por Dallara, contariam com chassi monocoque padrão sanduíche de espuma de alumínio construído pela Karmann e carroceria de fibra de carbono projetada pela Pininfarina, pesando apenas 950 kg. Equipado com transmissão Hewland NLT de 6 velocidades, a única coisa que diferenciaria os concorrentes seriam os motores, que poderiam ser qualquer V8 de produção capaz de entregar cerca de 600 CV. Em 2025 quatro carros surgiram à venda, um sem motor, dois deles com Chevy 383 ci V8 e o último com um Ferrari F131 V8, por um preço em torno de US$ 40.000 (R$ 240.000).
10. 2008 – A1GP Powered by Ferrari

Após um relativo sucesso com a primeira geração de carros baseados em um chassi Lola de F3000, a A1 GP decidiu dar um passo ousado criando um novo carro para aquela que seria a quarta temporada do campeonato. Após a negativa de construtores consolidados como Panoz, Lola e Dallara devido ao cronograma apertado da organização do campeonato, a A1 GP tomou as rédeas do projeto trazendo o desenvolvimento todo para dentro de casa. Os componentes em fibra de carbono seriam fabricados pela empresa URT, enquanto a montagem final foi realizada pela própria A1 GP. O projeto do chassi ficou a cargo de John Travis (que tinha no currículo carros da Champ Car para Penske e Lola, além do Epsilon Euskadi ee01 e do natimorto Fórmula Superfund SF01). Para impulsionar o carro, foi firmada uma parceria com a Ferrari para fornecimento de motores F136 V8 similares aos utilizados pela Ferrari 458, acoplados a uma transmissão Xtrac de 6 marchas. O chassi, por sinal, é um design próprio da A1 GP, sem relação com a Ferrari, porém estilizado para se assemelhar ao Ferrari F2004 da Fórmula 1. O engenheiro chefe da Ferrari, Rory Byrne atuou como consultor no projeto, e existem rumores de que a Ferrari tenha cedido modelos 3D do F2004 para auxiliar na estilização do A1 GP Powered by Ferrari. O carro, que acabou se tornando mais complexo e caro para operar, o que colaborou para que o campeonato fosse cancelado ao fim da temporada 2008-09.
Ao longo de quase sete décadas, esses carros se tornaram raridades técnicas e históricas, justamente porque a Ferrari quase nunca empresta seu coração mecânico. Deixe nos comentários se você conhece alguma outra história como essas que não fez parte da nossa lista.
