Explicando as categorias do automobilismo mundial – parte 2

No último artigo, conhecemos as principais disciplinas do automobilismo mundial. Hoje vamos conhecer a fundo as principais categorias de Fórmula a nível nacional e internacional, começando pelas categorias regidas pela FIA (Federação Internacional do Automobilismo).

Fórmula 1

A Fórmula 1 é o ápice do automobilismo mundial como categoria. É nela que os melhores pilotos competem nos carros que são os mais rápidos em um autódromo de asfalto. A origem do campeonato está no Campeonato Europeu de corridas de Grand Prix, disputado antes da Segunda Guerra Mundial, onde marcas como Alfa Romeo, Mercedes-Benz e Auto Union lutavam por vitórias em provas realizadas por toda a Europa. Como categoria, a F1 nasceu em 1946, com a primeira corrida disputada no mesmo ano, o Gran Premio del Valentino, disputado em Turim, Itália. O primeiro campeonato mundial foi disputado em 1950, e a categoria já empregou regulamentos técnicos dos mais variados.

Atualmente, cada equipe deve construir seu próprio carro, devendo inscrever dois carros por toda a temporada. Os carros são construídos com um monocoque em fibra de carbono, e tem peso de 660 kg sem piloto e combustível, e 740 kg incluindo o piloto. Os pneus são padronizados Pirelli, com 5 compostos de slicks para pista seca, além de pneus intermediários e de chuva para condições de pista molhada.

Desde de 2014, a motorização consiste de um motor 1.6l V6 Turbo associado a sistemas de recuperação de energia cinética (MGU-K) e térmica (MGU-H). Números de potência são mantidos como segredos industriais, porém acredita-se que em 2019 tanto Ferrari quanto Mercedes tenham superado a marca dos 1.000 cv de potência combinada do Powertrain.

O primeiro dos sistemas de recuperação de energia adotado foi o KERS (Kinectic Energy Recovery System – Sistema de Recuperação de Energia Cinética, em tradução livre), introduzido em 2009 e inicialmente opcional.

Com o regulamento de 2014, além do KERS, outro sistema chamado TERS (Thermal Energy Recovery System – Sistema de Recuperação de Energia Térmica) foi adotado. Pelo regulamento atual, a combinação dos dois sistemas pode recuperar até 4 MJ de energia por volta através da MGU-K, com potência máxima limitada a 120 kW (cerca de 160 cv). O resultado disso é que o sistema pode ser acionado em potência máxima por 33,3 segundos por volta, porém as equipes utilizam mapas com diversos níveis de potência para situações como ultrapassagens, saídas de curva ou voltas rápidas, de forma a otimizar a quantidade máxima de energia utilizável.

Após diversos acidentes fatais que marcaram a categoria até meados da década de 90, a F1 adotou uma abordagem quase neurótica com a segurança, o que, por sua vez, protegeu a vida de inúmeros pilotos desde então.

Atualmente, cada equipe deve homologar seu chassi em uma série de crash tests obrigatórios, e desde de 2018 o dispositivo HALO para proteção da cabeça do piloto.

Por anos, a F1 enfrentou críticas de que as corridas eram previsíveis e sem ultrapassagens. Em 2011 foi introduzido o DRS (Drag Reduction System­ – Sistema de Redução de Arrasto ou asa-móvel, como o sistema ficou conhecido no Brasil) para facilitar as ultrapassagens. O sistema consiste em uma articulação do elemento superior da asa traseira, que ao mover-se cria um vão, reduzindo o arrasto aerodinâmico e aumentando a velocidade em cerca de 10-15 km/h. O DRS, entretanto, não pode ser usado à vontade como o KERS, e seu uso é limitado à zonas demarcadas pela FIA em cada autódromo, e se pode ser acionado caso o carro em questão esteja a menos de 1 segundo do adversário à frente, esteja ele disputando posição ou levando uma volta.

Fórmula E

Com o movimento da indústria automotiva em direção à eletrificação, a FIA na pessoa do francês Jean Todt propôs a criação de uma categoria de monopostos voltada a modelos com propulsão exclusivamente elétrica. Dessa forma, nasceu em 2014 a Formula E, inicialmente com chassis e powertrain padronizadas. As provas são disputadas em circuitos de rua em diversas cidades ao redor do globo, e inicialmente a categoria ficou por ocorrer uma troca de carros no meio da corrida, devido ao alcance limitado das baterias então disponíveis. As temporadas são disputadas na transição entre um ano e outro, no formato 2014-2015.

A princípio, todas as equipes utilizavam carros idênticos, porém atualmente todas as equipes utilizam o mesmo chassis, o Spark-Renault SRT05e e pacote de baterias, com os times são livres para desenvolver os próprios motores, transmissões, inversores e sistema de arrefecimento. Os pneus são Michelin com sulcos, e padronizados entre todas as equipes para conter custos.

Os Formula E da temporada atual (2019-2020) têm potência estimada na casa dos 335 HP, com um peso mínimo de 900 kg, dos quais 385 kg são apenas o pacote de baterias. Durante os eventos, a potência total é limitada em 300 HP, porém existe a possibilidade de usar o Attack Mode (Modo de Ataque), que aumenta a potência em 35 HP. O uso desse sistema é limitado em áreas da pista definidas pela FIA. A quantidade e duração de ativações disponíveis por evento são informados pela FIA apenas 1 hora antes de cada corrida, criando mais um complicador para a definição da estratégia.

Outro sistema empregado pela categoria é o Fanboost. Nesse caso, os fãs podem votar através das redes sociais e os cinco pilotos mais votados recebem um incremento de potência de 5 segundos que pode ser utilizado durante a corrida).

Uma curiosidade dos Fórmula E atuais é que atualmente os monopostos da categoria não podem ser classificados como um fórmula ao pé da letra, já que possuem ambas as rodas dianteiras e traseiras cobertas para reduzir o arrasto aerodinâmico.

Fórmula 2

Enquanto a Fórmula tem origens claras, o mesmo não pode ser dito dos demais níveis das competições de monopostos da FIA. O atual formato do campeonato de Fórmula 2 da FIA foi concebido em 2017, sendo apenas uma mudança de nome da GP2, antiga categoria escola para a Fórmula 1.

A GP2, por sua vez, nasceu em 2005 após o fim do campeonato intercontinental da Fórmula 3000, e a Fórmula 3000 nasceu em 1985 como campeonato europeu, para servir como último degrau antes da Fórmula 1, após o colapso do Campeonato Europeu de Fórmula 2, devido aos elevados custos de competição. A primeira encarnação da F2 traçava suas origens nas voiturettes anteriores à Segunda Guerra Mundial, carros de competição similares aos carros de Grand Prix, porém com motores menores e menor peso mínimo.

Para complicar um pouco mais, entre 2009 e 2012, a FIA promoveu um campeonato de Fórmula 2 que nada tem a ver com a encarnação atual, utilizando carros fabricados pela Williams e motores Audi 1.8 Turbo.

Mas voltando à F2 atual, a categoria serve de suporte para diversas etapas do Mundial de Fórmula 1, além de ser o último degrau antes da categoria principal. Para conter custos e promover equilíbrio à competição, é utilizado um chassi único em fibra de carbono, chamado F2 2018 e construído pela italiana Dallara, sempre equipado com motores Mecachorme V634T, com potência de cerca de 620 HP. Atualmente o peso mínimo é de 755 kg (incluindo piloto), e os pneus são sempre Pirelli, similares em dimensão aos utilizados pela Fórmula 1 até a temporada de 2017.

O chassis é homologado com os mesmos critérios de segurança da F1, e desde de 2018 o dispositivo HALO para proteção da cabeça do piloto. Na área esportiva, um sistema DRS é empregado, utilizando as mesmas regras e zonas de aplicação da F1.

Fórmula 3

Como é de se esperar, a Fórmula 3 é o terceiro nível dos monopostos regulamentados pela FIA. Por muitos anos, a F3 permitiu a utilização de chassis de diversos fabricantes, que poderiam ser equipados com motores aspirados de 2.0 litros, baseados em motores de produção em série. Contudo, a partir de 2019 a FIA criou o FIA Formula 3 Championship com a fusão do Campenato Europeu de Fórmula 3 e do Campeonato FIA de GP3. Com isso, a categoria passou a ser disputada no formato monomarca, utilizando um novo carro, chamado Dallara F3 2019, (uma evolução do monoposto utilizado na extinta GP3), e o motor também é o mesmo Mecachrome V634 naturalmente aspirado dos antigos GP3. Com as novas regras, os carros da F3 passaram a ter um peso mínimo de 673 kg (incluindo o piloto), com potência máxima de 380 HP.

O regulamento anterior, entretanto, continua válido agora sob o nome de Fórmula 3 Regional sendo utilizado em campeonatos nacionais e regionais. Esses regulamentos variam ligeiramente de país para país, porém é comum o uso de chassis homologados como Fórmula 3 e motores com potência variando entre 200 HP e 270 HP.

Fórmula 4

Com os carros de F3 apresentando um desempenho cada vez mais elevado, em 2014 a FIA lançou a F4 para fechar o gap entre o kartismo e a Fórmula 3. Inicialmente, a categoria foi imaginada como monomarca, porém ao longo do tempo a FIA relaxou as regras permitindo a homologação de diversos fabricantes de chassi e motores. Ainda assim, o desempenho entre as diferentes opções é mantido equilibrado, e todos os carros devem ter monocoque construído em fibra de carbono, enquanto os motores devem ter quatro cilindros e cilindrada livre, porém com potência limitada a 160 HP. Com um peso mínimo de 570 kg, os Fórmula 4 atuais tem desempenho próximo ao dos Fórmula 3 de da década de 1990.

Onde acompanhar:

Fórmula 1: https://www.formula1.com/

Fórmula E: https://www.fiaformulae.com/

Fórmula 2: http://www.fiaformula2.com/

Fórmula 3: http://www.fiaformula3.com/ (campeonato FIA de Fórmula 3).

2 thoughts on “Explicando as categorias do automobilismo mundial – parte 2

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