Lamborghinis de corrida foram por muitos anos um tabu dentro da marca de Sant’Agata Bolognese. Desde que o fabricante de tratores passou a produzir esportivos, o foco sempre foi em desenvolver carros esportivos que fossem superiores aos da Ferrari, e Ferruccio Lamborghini via o automobilismo como algo que drenava muitos recursos da empresa. Isso fez com que a empresa se mantivesse afastada das pistas de corrida, com o primeiro carro de competição oficialmente desenvolvido pela fábrica apenas em 1996, o Lamborghini Diablo SV-R da categoria monomarca Super Trofeo. Somente em 2024 a fabricante italiana apresentou seu primeiro protótipo oficial para uma categoria de ponta, o SC63 que competiu no FIA WEC e no WeatherTech Sports Car Championship da IMSA. Entretanto, isso não impediu que ao longo da história diversas equipes e indíviduos com maior poderio financeiro adaptassem os bólidos italianos (ou partes deles) para competições. [Nota: esta publicação foi atualizada pela última vez em 18/10/2026].
1965 – Bizzarini P538 Lamborghini (Grupo 6)
1972 – AMS Lamborghini (Grupo 7)
1972 – Fúria Lamborghini (Divisão 4)
1985 – Lamborghini Countach QVX (Grupo C)
1991 – Lamborghini 291 (F1)
1991 – Konrad KM-011 Lamborghini (Grupo C)
1994 – Lamborghini Countach JLOC (JGTC)
1995 – Lamborghini Diablo Jota (GT500)
1997 – Lamborghini Diablo GT1 (GT500)
1997 – Vector M12 (GT2)
2001 – Lamborghini Diablo JGT1 (GT500)
2004 – Lamborghini Murciélago R-GT (GT500 / GT1)
2007 – Lamborghini Gallardo GT3 (GT3)
No Brasil, tivemos no passado o Fúria-Lamborghini criado por Toni Biancao para Jayme Silva, que utilizava motor e câmbio de um Lamborghini Miura que sofreu perda total após um acidente e, mais recentemente, tivemos o MCR Grand Am, protótipo desenvolvido para a categoria GP1 do Endurance Brasil. Essa história começa em 2014 quando o piloto gaúcho Fernando Poeta, então proprietário de dois modelos Lamborghini Gallardo GT3, decidiu investir na construção de um carro nacional pois a renovação da licença de permanência temporária para carros importados exigia que os carros deixassem o país, um pprocesso que era caro e demorado.
Lamborghini Gallardo LP560-4 GT3 de Fernando Poeta. Fonte: Endurance Brasil (1).
O projeto do bólido ficou a cargo do experiente engenheiro Luiz Fernando Cruz, fundador da MCR Race Cars e projetista de diversos carros vencedores nas Fórmulas Ford e Renault, Campeonato Brasileiro de Endurance, Sports 2000 e OSS britânicos, 12 Horas de Tarumã, entre outras provas e campeonatos.
1989 – Swift FR89 (Fórmula Renault)1990 – Swift FR90 (Fórmula Renault)1990 – Swift FB90 (Fórmula Ford 1600)1991 – Swift FR91 (Fórmula Renault)1999 – MCR Volkswagen2003 – MCR GT1 Chevrolet V82005 – MCR S2 Ford (Sports 2000)2007 – LFC Tornado – Haybusa2011 – MCR P2 Audi Turbo2017 – MCR Sport Ford (OSS)
Já a construção do carro foi realizada na oficina do preparador Noel Teixeira, com suporte da tradicional equipe gaúcha Mottin Racing, de Luciano Mottin, que também foi responsável por pelo suporte de pista do protótipo nas provas dos campeonatos gaúcho e brasileiro de endurance.
MCR durante a fase de construção e acertos. Fonte: Racecarpress (2)
O trabalho de desenvolvimento começou em 2014, época em que o regulamento do Endurance Brasil permitia apenas protótipos de estrutura tubular. Poeta não se sentia à vontade nos protótipos nacionais da época, em geral modelos de cockpit aberto e mais apertados internamente. Tendo acompanhado diversas provas da Grand Am com seu amigo Oswaldo “Ozzi” Negri Jr, Cruz partiu para um conceito inspirado no regulamento IMSA para os Daytona Prototypes. O projeto do chassi tubular foi feito completamente em CAD e concluído em poucas semanas. Partindo do powertrain de um Lamborghini Gallardo LP 560 GT3 (motor 5.2 V10 e transmissão Höllinger sequencial de seis marchas), o chassi tubular e a carenagem em fibra de vidro foram construídos. Com tanque de 100 litros de capacidade, o bólido acabou superando os 900 kg de peso mínimo da categoria GP1, batendo os 940 kg sem piloto.
MCR Grand-Am V10 ainda na fase de treinos. Fonte: Diário Motorsport (3)
Contudo, com a volta das Lamborghinis do exterior, a execução do projeto acabou mais lenta do que o esperado, com a equipe dedicando a maior parte do tempo à preparação e às provas da temporada. Nas palavras do próprio Cruz:
“Durante o ano de 2015, fabricamos o chassis e suspensão, num tempo relativamente curto, entre março e a metade do ano. Na segunda metade do ano, dedicamos ao conceito da carroceria, que foi concebida através de um processo manual meu e de um fibreiro. Foram meses fazendo o shape de todas as partes, até chegarmos às formas finais. Os conceitos foram pré definidos, como a utilização de radiador de água, seguindo a tendência da DP e também visando uma melhor distribuição de peso para o eixo dianteiro.”
Feito o modelo, ao final de 2015 foram fabricados os moldes dos painéis da carenagem, paralelamente à montagem dos sistemas elétrico, de alimentação de combustível, arrefecimento de água e óleo, direção e painel de instrumentos, que por fim foi completada em 2016. Inicialmente cogitava-se estrear já na primeira prova da temporada. O carro chegou a participar dos treinos das Três Horas de Santa Cruz do Sul (segunda etapa da Copa Brasil de Endurance e terceira do campeonato gaúcho), porém a equipe optou por postegar a estreia, como explicou o engenheiro Luiz Cruz:
“Agradeço a todas as manifestações dos
amigos e comunico que a equipe decidiu adiar a estréia do protótipo para a
próxima etapa, porém vai correr amanhã com a Lamborghini GT3. Não foi possível
ajustar alguns detalhes durante o pouco tempo das sessões oficiais, bem como os
4 pilotos inscritos não conseguiram treinar o suficiente com o novo carro.”
Dessa forma, a estreia oficial ocorreu mesmo nas Três Horas de Tarumã, com pilotagem do trio Fernando Poeta, Andersom Toso e Fernando Fortes. Nos treinos, o MCR classificou-se na quinta posição, com um tempo de 1m02s, e completou a prova com a terceira posição na classificação geral, com uma volta de desvantagem para os vencedores. Esse resultado deu o tom do que seria sina do MCR Grand-Am: em todas as provas em que participou, o modelo jamais marcou a pole-position, porém sempre se mostrou um carro confiável e com bom ritmo de prova.
Protótipo MCR Grand-Am nas 3 Horas de Tarumã em 2016. Fonte: Endurance Brasil (1).
Ainda em 2016, a temporada culminou com a vitória nas 12 Horas de Tarumã, conduzido pelo sexteto Fernando Poeta/Fernando Fortes/Marcelo Santanna/Andersom Toso/Pedro Queirolo e Henrique Assunção, considerada por Cruz um dos pontos altos do projeto e um dos momentos mais emocionantes de sua carreira:
“Foi um momento muito especial para mim, pois eu pude presenciar a disputa pela vitória de 4 projetos diferentes meus naquela ocasião. O MCR GrandAm, o MCR P2 Audi Turbo (também da Mottin), o LFC Tornado Hayabusa do amigo Cali Crestani e do MCR P3 da Equipe Tubarão. Este último foi o único que não chegou a liderar a prova, como os outros 3, mas terminou a corrida em terceiro na Geral. A disputa foi ferrenha pela vitória entre os 3, cada um liderando a prova em varios momentos. De manhã, o MCR P2 número 46, vencedor de inumeras 12 Horas, teve problemas, deixando a disputa pela ponta com o MCR GandAm e o Tornado. Eles trocaram de posição varias vezes. Na última hora de corrida o Tornado fez uma parada extra para reparos, enquanto liderava, deixando a vitória para o estreante MCR GrandAm. Completaram o Pódio o Tornado em segundo e o MCR P3 em terceiro. Esta foi uma das provas mais emocionantes de toda minha carreira. Apesar de muitas conquistas nas 12 Horas, que já perdi a conta, esta teve um sabor especial.”
Cruz e a tripulação vencedora comemorando a vitória nas 12 Horas de Tarumã. Fonte: Arquivo Luiz Fernando Cruz.Bandeira quadriculada selando a vitória da Mottin Racing nas 12 Horas de Tarumã de 2016. Fonte: Mottin Racing (4).
O ano 2017 viu a competição da categoria GP1 ficar mais acirrada, com a chegada de carros como o AJR e o Porsche 911 GT3 R. Nesse mesmo ano, a Mottin Racing recebeu patrocínio do energético Dopamina, numa temporada que teve como ponto alto a vitória na etapa de Guaporé do Campeonato Gaúcho de Endurance. A boa confiabilidade novamente foi crucial, e a temporada culminou com o vice-campeonato do certame gaúcho para Fernando Poeta.
Vitória de Fernando Poeta e Fernando Fortes em Guaporé na temporada 2017. Fonte: Mottin Racing (4)
Já pelo campeonato brasileiro, o MCR V10 apresentou alguns problemas nas primeiras etapas, e teve como melhor resultado o segundo lugar da categoria GP1 nos 500 km de São Paulo, o que deixou a equipe de fora da disputa pelo título na temporada 2017.
Para a temporada 2018, a Mottin Racing retornou ao Endurance Brasil, agora competindo na categoria P1 contra uma a nova geração de protótipos AJR. Mesmo sem vencer nenhuma prova na geral ou na categoria P1, o time composto por Claudio Ricci, Fernando Poeta e Beto Giacomello conseguiu utilizar a confiabilidade do MCR para angariar cinco pódios em sete etapas, com o terceiro lugar no campeonato brasileiro para o trio de piloto, e também com o título de campeões da categoria P1 no Campeonato Gaúcho de Endurance.
Análise Técnica
Chassis do MCR Lamborghini. Fonte: Racecarpres (1).
Como mencionado anteriormente, o chassi do MCR Grand Am é de estrutura tubular em aço carbono, utilizando perfis quadrados nas estruturas dianteira e traseira, enquanto a gaiola de proteção utiliza tubos de perfil circular, tal como prevê o Anexo J da FIA.
Visto de frente, o MCR Lamborghini tem uma mistura de elementos dos Daytona e Le Mans Prototypes. Isso porque a cabine (1) é bem larga, ao estilo dos protótipos americanos, porém o restante do design tem inspiração mais europeia, como o bico elevado (2). Nas provas em que competiu, o bólido recebeu diversas combinações de dive planes na dianteira: quando em testes, eram utilizadas duas aletas na lateral dos para-lamas, porém na estreia em 2016 a aleta superior foi substituída por um elemento bem mais robusto (imagens abaixo), provavelmente em busca de mais downforce. Na temporada 2017, o elemento inferior passou a adotar design similar ao superior (3), e em 2018 apenas o elemento inferior foi mantido. Curiosamente, nas temporadas 2016 e 2017 o protótipo não possuía os faróis integrados aos para-lamas, utilizando inicialmente faróis integrados aos espelhos retrovisores (imagem abaixo), que logo foram substituídos por elementos de led montados sobre os para-lamas dianteiros (4).
Interessante notar a suspensão, do tipo push rod com amortecedores horizontais na dianteira e verticais na traseira. Os discos de freio são metálicos tanto da dianteira quanto na traseira, com diâmetro de 355 mm e 380 mm, e pinças AP de seis pistões.
Diferente de outros protótipos brasileiros mais recentes, o piloto fica em posição deslocada ligeiramente para a esquerda.
Em, 2018, a dianteira do MCR recebeu diversas atualizações, como os faróis integrados (5) e dois dutos NACA, de função não identificada – o melhor chute é de que sirvam para conduzir mais ar ao sisema de freios (6).
Num layout relativamente incomum para um protótipo de motor central (solução carry-over do Gallardo GT3), o radiador é posicionado na dianteira, ventilando o ar quente por uma abertura similar a encontrada nos modelos GT. As rodas dianteiras contam com aberturas para reduzir o lift induzido pela rotação do conjunto roda-pneu.
Nessa outra imagem podemos ver que a tomada de ar para o sistema de freios também é realizada na grande entrada de ar inferior. O splitter dianteiro, não estava presente no carro que estreou em 2016 em Tarumã, porém já na prova seguinte, em Guaporé, o componente foi adotado.
A lateral mantém um perfil similar ao dos Daytona Prototypes, com destaque para os dutos NACA com função de levar ar para os freios traseiros (7) e para o cofre do motor (8).
Inicialmente, o MCR não possuía nenhuma entrada de ar sobre o teto, porém ainda em 2016 uma pequena entrada de ar foi adicionada. Em 2017, o que parece ser uma saída de ar também foi incluída, num layout curioso. Considerando a posição da admissão de ar do motor, essas entrada e saída sobre o teto parecem ter função de ajudar na ventilação da cabine, principalmente.
Visto por trás, o MCR tem um difusor (9) com dois elementos laterais com maior ângulo de inclinação, e um elemento central de menores proporções com dois strakes separando o fluxo interno. O difusor traseiro é suportado em parte por duas hastes ligadas ao suporte da asa traseira. As saídas do escapamento (10) ficam posicionadas de forma bem similar à do Lamborghini Gallardo que empresta o motor ao protótipo. A asa traseira (11) parece ser o mesmo elemento utilizado no Gallardo GT3, o que é visível pelas semelhanças entre o suporte, perfil da asa e o formato dos endplates. Fato curioso por se tratar de um protótipo, o MCR tem uma janela traseira de policarbonato.
Após um hiato durante a temporada 2019, quando Fernando Poeta optou por competir com o Lamborghini Gallardo GT3 na categoria Light, o MCR Grand Am retornou às pistas para a temporada 2020. Contudo, o motor Lamborghini V10 foi deixado de lado e o carro passou a ser movido por uma unidade Ford Coyote V8 5.0.
Ainda para a primeira etapa da temporada 2020, a equipe FTR Motorsport trouxe algumas novidades aerodinâmicas, como a combinação de canards na dianteira, composta por um elemento inferior grande em conjunto com um elemento na lateral do para-lamas dianteiro (12). Outra novidade foi a troca dos espelhos retrovisores (13), que apesar de representarem um aumento no arrasto aerodinâmico também representam uma melhora considerável da visibilidade para os pilotos.
Outra novidade implementada foi a tomada de ar sobre o teto (13), elemento que já apresentou diversas configurações diferentes durante as temporadas passadas, e que agora consiste de uma entrada retangular que se estende por todo o comprimento do teto do cockpit do protótipo #18.
Para a segunda etapa da temporada, disputada em Curitiba, a única alteração foi a utilização de apenas um canard na dianteira, em uma prova que teve participação reduzida a apenas 13 voltas completas (imagem acima).
Na terceira etapa, disputada no travado circuito do Velopark, e nos treinos classificatórios o MCR #18 mostrou um bom desempenho, com um melhor tempo de 53s196 cravado por Cláudio Ricci, a melhor marca da P2 no final de semana. No decorrer da prova diversos competidores apresentaram problemas, e dentro da categoria o carro de Fernando Poeta, Arthur Caleffi e Claúdio Ricci foi aquele que mais completou voltas, porém não levou a vitória, já que a equipe foi desclassificada por utilizar um jogo de pneus que não havia sido lacrado pela organização.
Depois dessa prova, o MCR voltou às pistas apenas na etapa de encerramento, disputada novamente no Velopark, trazendo algumas novidades importantes. Na mecânica, a transmissão foi substituída por uma unidade Hewland sequencial, com gerenciamento Geartronics. Além disso, a carenagem do motor foi completamente revisada, tendo como principal mudança a adoção de uma barbatana dorsal (14), e também da tomada de ar do motor, que passou para o scoop central do carro. As atualizações apresentaram resultados, com a conquista da vitória na P2.
Em 2021, Poeta e Cláudio Ricci conquistaram o campeonato da classe P2, conquistando 6 vitórias na classe enfrentando novos competidores como o Giaffone G21, Absoluta ABS01 e Sigma P1 G2. Em 2022 a classe P2 teve seu regulamento revisto, incluindo agora os protótipos P3 e modelos GT3 Light. Dessa forma, se juntaram ao grid carros como o Aston Martin V12 Vantage GT3, Ferrari 458 GT3 e Lamborghini Gallardo LP600+ GT3, mas o resultado foi o mesmo: novo título para Poeta e Ricci, com mais 5 vitórias na P2. A temporada 2023 marcou a aposentadoria (até o momento) do MCR Grand Am, após Fernando Poeta adquirir uma Ligier JSP320. Como o novo carro não chegaria a tempo para a abertura, o MCR foi inscrito na classe P1 uma última vez como solução provisória.
Se você deseja aprender mais sobre aerodinâmica de carros de corrida, recomendo consultar o Competition Car Aerodynamics por Simon McBeath. Este livre tem sido muito útil para o meu processo de aprendizagem na elaboração da análise técnica para o site.
Resultados
Agradecimentos
Gostaríamos de agradecer a Luiz Fernando Cruz por compartilhar seus comentários sobre o desenvolvimento e o acompanhamento do histórico do MCR Grand Am, os quais foram inestimáveis para a elaboração deste artigo.
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